Coleta descentralizada no diagnóstico laboratorial: tendências observadas no ADLM 2026

A ampliação do acesso ao diagnóstico laboratorial passa não apenas pelo desenvolvimento de novos ensaios e equipamentos, mas também pela reorganização da etapa pré-analítica. Entre as tendências abordadas no ADLM 2026, destaca-se o avanço de modelos de coleta mais próximos do paciente, associados à simplificação do acondicionamento, do transporte e da preparação das amostras.
Nesse contexto, a descentralização da coleta pode contribuir para reduzir barreiras relacionadas ao deslocamento do paciente, ao volume de amostra e à complexidade logística. Entretanto, essa mudança não reduz a importância dos critérios técnicos. A qualidade do resultado continua diretamente relacionada à padronização da coleta, à estabilidade da amostra, ao transporte adequado e à validação do processo pelo laboratório.
O diagnóstico laboratorial pode começar fora do laboratório
Em modelos convencionais, grande parte da jornada diagnóstica está concentrada na estrutura física do laboratório ou do posto de coleta. A evolução dos sistemas de coleta permite que determinadas etapas sejam realizadas de maneira descentralizada, desde que existam critérios definidos para cada tipo de amostra e aplicação.
Essa abordagem pode ser particularmente relevante em situações nas quais o deslocamento representa uma barreira, como no atendimento de pacientes em regiões afastadas, em programas de monitoramento periódico ou em estratégias de coleta domiciliar.
A descentralização pode envolver:
· coleta mais simples e com menor volume de amostra;
· coleta domiciliar ou autocoleta orientada, quando aplicável;
· redução do volume e do material transportado;
· simplificação do acondicionamento e da logística;
· menor dependência de refrigeração quando a estabilidade do analito e o sistema de coleta permitirem;
· integração mais direta entre paciente, profissional de saúde e laboratório.
Essas possibilidades devem ser avaliadas de acordo com o método analítico, a estabilidade do analito, as características da matriz biológica e os requisitos estabelecidos para processamento e transporte.
Descentralizar a coleta não significa descentralizar a responsabilidade técnica
A possibilidade de coletar uma amostra fora da estrutura convencional do laboratório não modifica os princípios que sustentam a qualidade analítica.
O laboratório permanece responsável pelos processos relacionados à validação dos métodos, controle de qualidade, processamento das amostras e liberação dos resultados. A mudança ocorre principalmente no ponto de entrada da amostra na jornada laboratorial.
Por isso, qualquer estratégia de coleta descentralizada precisa considerar de forma estruturada fatores como identificação, quantidade coletada, acondicionamento, estabilidade, tempo de transporte e rastreabilidade.
A proposta não é reduzir critérios para facilitar o acesso, mas utilizar tecnologias que permitam remover determinadas barreiras operacionais mantendo o controle técnico do processo.
Sistemas de coleta e a redução de barreiras pré-analíticas
A etapa pré-analítica compreende diferentes processos anteriores à medição propriamente dita. Coleta, identificação, acondicionamento, transporte e preparação da amostra fazem parte dessa sequência e podem interferir diretamente na qualidade do material que chega à análise.
Sistemas desenvolvidos especificamente para simplificar essas etapas podem contribuir para aumentar a padronização e facilitar modelos de atendimento descentralizados.

Sangue seco em papel-filtro: DBS
Dried Blood Spot (DBS) utiliza sangue coletado e aplicado em papel-filtro. A utilização de pequeno volume de amostra e o formato seco podem facilitar determinadas estratégias de coleta e transporte quando o sistema estiver devidamente validado para o analito e para a aplicação pretendida.
Em comparação com o transporte de recipientes contendo amostras líquidas, o papel-filtro pode representar uma alternativa operacional para determinados fluxos laboratoriais, especialmente quando o objetivo é alcançar pacientes fora dos pontos tradicionais de coleta.
A utilização do DBS, entretanto, exige critérios específicos para coleta, secagem, acondicionamento, estabilidade e processamento posterior da amostra. Portanto, sua incorporação à rotina deve considerar os requisitos técnicos definidos para cada aplicação.

Urina seca em papel-filtro
O uso de urina em papel-filtro segue uma lógica semelhante de redução do volume de material transportado. A amostra é aplicada em um suporte apropriado, permitindo que determinadas análises sejam estruturadas a partir de uma matriz seca.
Essa configuração pode simplificar a logística em aplicações validadas e favorecer estratégias de coleta remota. Assim como ocorre com o sangue seco, a viabilidade depende da estabilidade do analito e da validação de todas as etapas do processo, desde a obtenção da amostra até sua recuperação e análise no laboratório.
O benefício operacional do formato seco, portanto, deve sempre ser interpretado em conjunto com os requisitos analíticos específicos.

Stool Preparation System (SAS) e a padronização da coleta fecal
A coleta de amostras fecais apresenta desafios próprios relacionados ao manuseio, à quantidade de material e à preparação da amostra.
Stool Preparation System (SAS) é um sistema destinado a organizar essa etapa, favorecendo uma coleta mais padronizada e reduzindo o contato direto com o material. O dispositivo também pode contribuir para diminuir variações relacionadas à quantidade coletada e facilitar etapas posteriores da preparação no laboratório.
Nesse cenário, a tecnologia de coleta atua como parte do processo pré-analítico, e não apenas como um recipiente para transporte.
Transporte sem refrigeração depende da estabilidade do sistema e do analito
A cadeia refrigerada pode representar um componente importante da complexidade logística de algumas amostras. Embalagens específicas, controle de temperatura e transporte em condições definidas aumentam o número de variáveis que precisam ser monitoradas.
Quando existe estabilidade tecnicamente demonstrada para o sistema de coleta e para o analito, a possibilidade de transporte sem refrigeração pode simplificar essa etapa e favorecer o envio de amostras provenientes de regiões mais distantes.
Isso não significa que o controle pré-analítico deixe de ser necessário. Mesmo sem refrigeração, fatores como tempo de transporte, temperatura ambiental, acondicionamento e proteção da amostra continuam relevantes.
Portanto, a ausência de cadeia refrigerada deve ser entendida como uma característica específica de sistemas e aplicações compatíveis com essa condição, e não como uma regra geral para amostras laboratoriais.
A inovação diagnóstica também ocorre antes da análise
Grande parte da discussão sobre inovação laboratorial está concentrada em novos equipamentos, metodologias e biomarcadores. Entretanto, o desempenho de uma análise também depende das condições em que a amostra foi obtida e encaminhada ao laboratório.
Uma amostra inadequadamente coletada, identificada, acondicionada ou transportada pode comprometer etapas posteriores mesmo quando o método analítico utilizado apresenta elevado desempenho.
Por esse motivo, os sistemas de coleta integram a estratégia de qualidade do laboratório. Quando adequadamente implementados, podem contribuir para padronizar procedimentos, reduzir variáveis pré-analíticas e aumentar a rastreabilidade do processo.
Coleta mais próxima do paciente e ampliação do alcance laboratorial
A descentralização observada como tendência no mercado diagnóstico não implica substituir o laboratório. Ao contrário, ela modifica a forma pela qual o paciente e a amostra chegam até ele.
Tecnologias como o DBS, a urina seca em papel-filtro e sistemas destinados à preparação de amostras fecais exemplificam como a etapa de coleta pode ser redesenhada para responder a desafios relacionados a distância, volume de amostra e logística.
O potencial dessas soluções está associado à combinação entre acessibilidade e controle técnico. Para que a ampliação do alcance seja acompanhada pela preservação da qualidade, cada sistema precisa estar integrado a critérios definidos de coleta, acondicionamento, transporte, processamento e validação.
Nesse sentido, uma das tendências relevantes para o diagnóstico laboratorial é aproximar a coleta do paciente sem afastar a amostra dos requisitos técnicos necessários para sua análise. A evolução da etapa pré-analítica torna-se, assim, parte importante da construção de modelos diagnósticos mais descentralizados e compatíveis com diferentes realidades logísticas.










